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Rádio OA

Os ditados certeiros de meu avô e o porquê meus ombros doem

Giovanna Campos traz um relato reflexivo sobre o amadurecimento, construído através do contraste entre a sabedoria e a ingenuidade
Publicado em 4 de maio de 2026
por Giovanna Campos

Quando eu era criança meu avô me dizia muitas coisas certeiras que eu só viria a entender quando me tornasse adulta. Aqui estou, maior de idade desde minha infância, percebendo o quanto fui tola e ingênua ao não compreender a sabedoria ancestral. Homem simples, de 76 anos, que construiu a vida e de sua família sem saber assinar o próprio nome. Uma vez ele me disse que “quem não puxa saco, puxa carroça”.

O ditado é infalível e eu, aos 26, já sinto o peso na minha lombar. É evidente? Sim, mas o óbvio precisa ser dito porque cada um compreende uma coisa nessa subjetiva narrativa que é a vida. Independente da faixa etária, cor da pele, orientação sexual ou classe social: todo ser humano gosta de ser elogiado. “O homem e a vaidade movem o mundo”.

“Vovô, eu não quero ser vista e muito menos lembrada”, dizia eu no auge de minha estupidez. Mas é claro, se eu não fosse vista, eu não seria notada, e muito em breve, possivelmente descartada. Lendo Balzac eu pensei que pudesse deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir, mas vivendo a vida eu entendi que quem não aparece em um mundo de aparências, logo desaparece.

Meu vôzinho também me disse uma vez que “viúvo é quem morre”.

A primeira escuta (logo após a morte de um familiar) me chocou. A segunda vez que ouvi com os ouvidos mais atentos, ainda continuei meio desassossegada. A terceira vez eu compreendi. Meu pai perdeu a esposa de maneira trágica e 29 dias depois ele estava casado (sim, no cartório e tudo) com outra mulher.

Não sou religiosa então nunca fui de julgar os outros. Se há júri, é popular e bem fundamentado. Compreendi que — naquele momento — meu pai precisava se salvar. Entendi que por mais difícil e doloroso, a vida continua e tem que continuar.

O luto faz parte nesse processo desconfortável e indigesto que é viver. E sobreviver ao luto também faz parte.

O sentido da vida é este, segundo Contardo Calligares: é a própria vida concreta. A que vivemos e da qual faz parte também morrer.

Eu poderia ficar horas recitando ditados e tudo o que eles me ensinaram. O meu avô sofreu muito na vida. Perdeu os pais ainda jovem, passou inúmeras dificuldades, mas não desanimou. O meu avô é um homem de fé e não tem medo de nada.

Só tem medo da morte.

Ele sempre me dizia: A vida é boa, minha filha, quando se vive feliz.

Eu entendi que a alegria é um estado de morfina e a felicidade é uma escolha. E desde criança escuto O Teatro Mágico e percebo cada vez mais como “o fim é belo, incerto, depende de como você vê”.

Leia textos literários aqui


Giovanna Campos, 26 anos, é formada em jornalismo pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
É editora do Jornal Opção em Goiânia, e militante pelos direitos humanos.
Não gosta de esportes, possui fé, mas não religião.
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Ficha Técnica

Editor Chefe: Luiz Fernando
Supervisão: Greg
Redação: Kássio Kran
Imagem: Giovanna Campos
Postagem Original

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