No futebol masculino só não se pode ser gay. A recente declaração de Ignácio “Nacho” Lago, jogador do Cólon, na Argentina, às vésperas da estreia da equipe na Libertadores, reacendeu um debate antigo — e ainda urgente — sobre os limites invisíveis impostos dentro e fora das quatro linhas. Em um ambiente historicamente marcado por códigos rígidos de masculinidade, falar abertamente sobre orientação sexual ainda é, para muitos atletas, um risco maior do que enfrentar qualquer adversário em campo.
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O episódio remete à obra “O outro lado da bola”, de Álvaro Campos, que narra a trajetória fictícia de um camisa 10 que revela sua orientação sexual em rede nacional e encontra problemáticas externas ao futebol. Embora situada em um contexto literário, a narrativa encontra eco na realidade: o futebol, sobretudo em cenários nacionais mais conservadores, permanece um espaço onde o preconceito opera de forma silenciosa — ou nem tanto.
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A cultura do futebol carrega traços profundos de machismo estrutural e valores patriarcais que atravessam gerações. Não é de hoje. Nos anos 1990, um episódio envolvendo Diego Maradona e Claudio Caniggia marcou uma rara ruptura simbólica: após uma declaração homofóbica do então técnico Daniel Passarella, os dois jogadores trocaram um beijo em campo, em gesto de protesto. O ato, embora emblemático, não foi suficiente para alterar estruturalmente o ambiente.
Paradoxalmente, o mesmo futebol que silencia discussões sobre diversidade sexual frequentemente releva — ou até normaliza — episódios graves envolvendo seus ídolos. Casos de violência contra a mulher, denúncias de estupro coletivo, sonegação de impostos e até condenações judiciais não impedem que determinados jogadores continuem sendo celebrados por seus feitos esportivos. A memória coletiva parece operar de forma seletiva: exalta-se o talento, apagam-se os desvios.
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Nesse ponto, o pensamento de Hannah Arendt torna-se especialmente pertinente. Ao tratar da “banalidade do mal”, Arendt não propõe patologizar indivíduos, mas alerta para o perigo de normalizar comportamentos eticamente inaceitáveis. No futebol, essa lógica se manifesta quando atos violentos são relativizados em nome do espetáculo — um risco que enfraquece não apenas a responsabilização, mas também os valores sociais que o esporte deveria promover.
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Enquanto isso, torcedoras e pessoas LGBTQIA+ frequentemente se afastam dos estádios, não por falta de paixão, mas por medo. O ambiente hostil, alimentado por cânticos, ofensas e até agressões, transforma o que deveria ser um espaço de celebração coletiva em território de exclusão.
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Curiosamente, no futebol feminino, observa-se maior presença de atletas que assumem publicamente relações homoafetivas, sem que isso gere o mesmo nível de controvérsia. A diferença levanta questionamentos importantes. Parte da explicação pode residir na forma como relações entre mulheres são, muitas vezes, fetichizadas, enquanto relações entre homens seguem sendo alvo de maior rejeição social — um reflexo direto de construções culturais desiguais.
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Diante desse cenário, a atitude de Ignácio Lago — ainda que por ele não percebida como um ato político — ganha dimensão simbólica. Falar sobre sua sexualidade é, antes de tudo, afirmar o direito de existir de forma plena em um espaço que historicamente impôs silêncios. Mais do que coragem individual, trata-se de um movimento necessário para romper estigmas e abrir caminhos para outros.
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Afinal, o atleta deve ser cobrado por seu desempenho, e não por sua orientação sexual. Desconstruir preconceitos arraigados é passo fundamental para que o futebol se torne, de fato, um espaço de inclusão — e não um “clube do bolinha” sustentado por valores que já não encontram lugar na sociedade contemporânea.
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Karen Rodrigues é psicóloga formada em 2011,
especialista em Psicologia do Esporte e do Exercício pela Ceppe-SP,
Psicologia no Futebol, pelo Futebol Interativo-SP, e apaixonada por esportes;
atende online demandas de atletas amadores e profissionais e demais demandas de saúde mental
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