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O divã no meio do campo

Afinal, o que faz um psicólogo no futebol?
Publicado em 27 de março de 2024
por Karen Rodrigues

Afinal, o que faz um psicólogo no futebol? Até hoje, sabe-se que o imaginário social sobre a Psicologia ainda envolve uma mesa/divã, silêncio e cara de paisagem. Ou seja, como seria possível trabalhar em um ambiente que reúne elementos totalmente contrários a esse cenário?

O fato é que a Psicologia se encaixa muito bem no Futebol, assim como em outros esportes que envolvem a competitividade e as reações emocionais típicas do ser humano. Desde a prática amadora até o alto rendimento, é a Psicologia do Esporte e do Exercício a especialidade que se ocupa do bem-estar e potencial do atleta, bem como do relacionamento estabelecido com a prática.

Jogador trajando uniforme alvinegro cumprimentando o treinador de branco com gramado ao fundo
Rissatti F.C. é um time amador de Ceres – GO que conta com psicólogo no elenco (Foto: Wendell Rocha)

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Essa especialidade foi reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia em 1979, porém antes dessa data já havia profissionais que se dedicavam à compreensão dos fatores psicológicos e a prática esportiva, como o jornalista e psicólogo João Carvalhaes, que acompanhou a delegação da Seleção Brasileira à Suécia no ano de sua primeira conquista mundial, 1958. A história de Carvalhaes e sua trajetória no mundo psicológico do futebol se iniciou junto aos árbitros da Federação Paulista e se estendeu ao São Paulo Futebol Clube, e foi, para dizer o mínimo, controversa para a época (vale lembrar que a Psicologia só se tornou profissão em 1962, não havia tantos testes psicológicos, mas já havia ali a curiosidade de Carvalhaes.

No mais, e em uma perspectiva mais atual, a Psicologia aplicada ao Futebol ganha cada vez mais reconhecimento a partir de figuras públicas e acontecimentos que trazem a discussão da necessidade de cuidado psicológico aos atores do esporte mais popular do Brasil. Desde Regina Brandão e Felipão na Copa de 2002 a Fernando Diniz e Emilly Gonçalves na conquista da Copa Libertadores da América em 2023, a figura do profissional da Psicologia se torna cada vez mais presente, inserida na comissão técnica e agindo de forma contínua junto aos clubes.

Mais comumente nos bastidores, estes profissionais fazem parte de uma ideia moderna do esporte, em que o atleta é visto como mais que uma máquina; além do desempenho, faz-se mister analisar os componentes emocionais e sociais envolvidos na prática. “Por que este clube? Como se chegou até aqui? O que o jogador conhece sobre a Psicologia? Quais são as expectativas? São do jogador ou da família? Por quem se joga? Como o jogador está para a volta de uma lesão? Como lidar com a pressão da torcida? Como será o retorno ao campo após casos de violência física ou psicológica, presencial ou por redes sociais?” Entre tantas outras, estas são questões a serem trabalhadas pela Psicologia do Esporte, visto que tais fatores psicológicos podem impactar negativamente na prática.

Para que isso seja alcançado, entra aí uma competência desenvolvida na faculdade (e na vida), a escuta qualificada do psicólogo, que deve acontecer no próprio ambiente de atuação do jogador. As conversas acontecem no campo, no intervalo ou após o treino, ou em ambiente reservado à prática clínica; como membro da equipe técnica, devem ser compartilhadas observações e orientações, e o objetivo é cada vez mais fazer parte dessa equipe como algo natural – afinal há fisiologistas, nutricionistas, preparadores técnicos, todos interessados em potencializar o desempenho e corrigir déficits, por que não psicólogos?

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Em 2024, espera-se que esta questão esteja mais clara aos clubes e, no entanto, muitos ainda possuem certa resistência à presença da Psicologia, seja como estrutura ou função. Ainda é comum ouvir personalidades afirmarem que “Psicologia é coisa de louco”, ou “meus psicólogos são meus amigos”, sem contar diretores que contratam psicólogos para palestras motivacionais logo antes ou após partidas importantes, revelando um desconhecimento sobre a ciência e suas contribuições à prática esportiva.

Importante ressaltar que o trabalho psicológico não se faz em um encontro, os resultados dessa relação devem ser pensados a médio e longo prazo, o que é paradoxal à paixão e necessidade de resultados do futebol; estes mesmos diretores, que deveriam se preocupar com o desenvolvimento pessoal e profissional de seus “ativos”, muitas vezes se comportam como torcedores, cedendo à emoção e descartando o psicólogo do clube, ansiando por resultados imediatos.

De forma otimista (e enquanto apaixonada por este esporte mágico), vislumbro um cenário mais positivo para os próximos anos. A profissionalização cada vez mais cedo e altas cifras envolvidas no futebol promovem, além de mais visibilidade para a prática, mais discussão a respeito de fatores sociais e psicológicos, e mais conscientização da população e dos próprios envolvidos no futebol. Antigos padrões de comportamento, falas e posicionamentos não são mais aceitos, e cada vez mais percebe-se a necessidade de humanizar o esporte. Imprensa, profissionais, jogadores, familiares, expectadores – é de todos nós a responsabilidade de tirar a Psicologia do senso comum e promover sua inserção no esporte. O futebol, por si, só tem a ganhar.

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Karen Rodrigues é psicóloga formada em 2011, especialista em Psicologia do Esporte e do Exercício pela Ceppe-SP, e Psicologia no Futebol, pelo Futebol Interativo-SP, e apaixonada por esportes; atende online demandas de atletas amadores e profissionais e demais demandas de saúde mental.

Ficha Técnica

Editor Chefe: Luiz Fernando
Supervisão: Rafaela Prado
Redação: Kássio Kran

Parceria: Rissatti FC

(Fotos publicadas com respeito ao Direito de Imagem)

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