Recentemente um parecer muito me indignou. O Parecer nº6/2026/Câmaras Técnicas de Enfermagem, veio a público falar sobre a utilização da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) por enfermeiros em suas práticas assistenciais, de ensino, pesquisa e extensão, como se a TCC fosse uma simples caixinha de ferramentas que qualquer um pode abrir, pegar uma técnica indiscriminadamente e aplicá-la. Sabe, essa ideia é propagada inclusive por alguns de meus colegas psicólogos e psicólogas.
Leia agora: Presidente do CRP de Goiás critica medida do COFEN
Quero informa-los: não é! A TCC não é uma caixa de ferramentas. Ela é um processo que deve ser aplicado por profissionais que tenham formação em psicologia, que sejam treinados para a estruturação do processo, que tenham expertise para avaliar funcionalmente a história do paciente. Do contrário, de nada vai adiantar o seu arcabouço de técnicas (muito boas realmente, quando bem aplicadas em um paciente bem avaliado anteriormente e posteriormente e aplicação).
Esse mesmo Parecer cita para seu embasamento: o Guia Prático de Matriciamento em Saúde Mental (BRASIL, 2013), os Cadernos de Atenção Básica nº 34 – Saúde Mental (BRASIL, 2011) e nº 35 – Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica (BRASIL, 2014) e o Consenso em Abordagem e Tratamento do Fumante (BRASIL, 2001; 2015) para fundamentar a “permissão” aos enfermeiros.
O conjunto desses documentos sustenta claramente que: o cuidado em saúde mental, mudança de comportamento, adesão terapêutica e atenção psicossocial no SUS dependem de atuação multiprofissional com forte participação da Psicologia. Eles também reforçam clínica ampliada, tecnologias relacionais, cuidado longitudinal, escuta qualificada, abordagem psicossocial. Todos elementos centrais da atuação do psicólogo no SUS contemporâneo.
Para além desses documentos, ele segue citando:
- YOSEP et al., 2023, um professor associado na Faculdade de Enfermagem da Universitas Padjadjaran. Ele é especialista em Enfermagem de Saúde Mental, com foco em trauma, resiliência, autoeficácia e comportamento agressivo. O estudo citado é um estudo que teve o objetivo de revisar intervenções baseadas em mindfulness voltadas para melhora do bem-estar psicológico de estudantes durante a pandemia de COVID-19.
Primeira coisa importante: O estudo citado não é uma meta-análise, o que conta na interpretação. O paper é uma: Scoping Review, ou seja, mapeia literatura, organiza estudos, descreve intervenções, identifica tendências, mas não calcula efeito combinado, não estima magnitude global do efeito, não responde causalidade com força alta. Então já aqui existe um ponto importante: o nível de evidência é moderado para baixo quando comparado a revisões sistemáticas com meta-análise.
E você pode se perguntar: O que o estudo encontrou? Eu te conto: a conclusão do paper diz que mindfulness pode melhorar bem-estar psicológico em estudantes durante a pandemia. Uma crítica importante: O artigo fala pouco sobre qualidade metodológica individual, risco de viés, efeito placebo, cegamento, publicação seletiva. E mindfulness sofre muito com: viés de expectativa, viés de engajamento, efeito hawthorne, desejabilidade social. Isso quer dizer que parte da melhora pode vir de atenção recebida, sensação de cuidado, expectativa positiva, pausa na rotina. Não necessariamente da técnica específica.
Mas tá, isso significa dizer que o estudo do Yosep é útil para mapear tendências e mostrar plausibilidade clínica do mindfulness durante a pandemia, mas tem força limitada para afirmar eficácia robusta devido à heterogeneidade dos estudos, ausência de meta-análise e limitada avaliação de risco de viés. Outra coisa: o estudo foi feito durante a pandemia/avaliou resultados da pandemia, durante COVID nós tivemos: isolamento, medo, ruptura social, ensino remoto e incertezas. Então qualquer intervenção que aumentasse conexão, rotina, regulação emocional e suporte poderia gerar melhora parcial. Isso dificulta atribuir causalidade específica.
Leia agora: Pandemia, Negacionismo e Sofrimento Psíquico
Mas voltando ao referido Parecer: ele cita esse estudo como embasamento técnico-científico que comprovaria a efetividade de intervenções cognitivo-comportamentais conduzidas por enfermeiros na redução de sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). E aqui temos a confusão que mais me perturba: O estudo não cita TEPT. O que provavelmente aconteceu é que durante a pandemia, muitos estudos passaram a discutir sofrimento traumático; sintomas relacionados a trauma; hipervigilância; medo intenso; sofrimento pós-pandêmico.
Leia agora: 44% dos brasileiros tiveram problemas psicológicos na pandemia, diz Datafolha
Então alguns artigos de mindfulness citam Transtorno de Estresse Pós-Traumático na introdução ou na discussão teórica, mas isso não significa que o desfecho principal era TEPT. No caso dessa scoping review: os desfechos principais eram mais amplos, ligados a saúde mental geral e bem-estar psicológico. Ou seja, não é correto dizer que esse artigo demonstra redução de sintomas de TEPT de forma robusta.
Muito menos dizer que ele avaliou a efetividade de intervenções cognitivo-comportamentais conduzidas por enfermeiros na redução de sintomas do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. No máximo, ele pode ser citado como uma revisão que investigou intervenções de mindfulness para sofrimento psicológico durante a pandemia. E isso é importante metodologicamente, porque: “estresse” é diferente de TEPT; sofrimento emocional é diferente de transtorno pós-traumático; ansiedade pandêmica é diferente de paciente diagnosticado. Um bom psicólogo, saberia disso.
A citação seguinte traz:
- ZHANG et al., 2018, para trazer a evidência científica da efetividade de intervenções cognitivo-comportamentais conduzidas por enfermeiros no manejo do câncer de ovário;
Eu procurei e não encontrei de nenhuma forma e em nenhum lugar essa suposta evidência, nem esse autor ligado a esse tema de pesquisa. Mas sugiro que ele seja Yong Zhang, pesquisador da área biomédica/computacional, que trabalha com bioinformática e análise de dados biológicos, pesquisa doenças complexas usando métodos computacionais e atua num campo metodologicamente muito diferente das revisões psicossociais sobre mindfulness e saúde mental.
Me resta torcer pra que hajam mais esclarecimentos sobre isso.
Depois temos a citação de:
- OMKARAPPA, 2021 para trazer a evidência científica da efetividade de intervenções cognitivo comportamentais conduzidas por enfermeiros no tratamento de transtornos relacionados ao uso de álcool e drogas.
Dayananda Bittenahalli Omkarappa é um enfermeiro de terapia intensiva (Intensive Care Unit Staff Nurse) e pesquisador que atua no Yeovil District Hospital NHS Foundation Trust (Fundação Hospitalar Distrital de Yeovil), localizado no Reino Unido. Seu foco de pesquisa concentra-se em terapia intensiva, particularmente na melhoria do prontuário eletrônico de saúde por enfermeiros. Ele também tem histórico acadêmico em enfermagem psiquiátrica e saúde mental, com estudos sobre crianças de pais alcoólatras e problemas psicossociais.
O estudo citado é interessante, mas ele não sustenta sozinho uma conclusão forte de que enfermeiros podem conduzir intervenções cognitivo-comportamentais eficazes para transtornos por uso de álcool e drogas em geral. Primeiro que, o estudo não trata diretamente o transtorno por uso de álcool dos pais. O alvo da intervenção não eram os usuários de álcool, nem mesmo a dependência química, craving, recaída, abstinência etc., o alvo eram os filhos dos pais alcoolistas. E especificamente: problemas internalizantes, ou seja, ansiedade, retraimento, tristeza, sofrimento emocional, sintomas emocionais internalizados. Isso já limita muito a extrapolação.
O estudo não prova que enfermeiros podem tratar dependência química com TCC, inclusive porque ele não foi desenhado pra isso. Mas sim, ele sugere que enfermeiros psiquiátricos treinados podem conduzir intervenções grupais baseadas em TCC para sofrimento emocional associado ao contexto familiar do alcoolismo, e convenhamos, isso é bem, bem diferente. usar esse artigo para defender efetividade da TCC conduzida por enfermeiros no tratamento de álcool e drogas é extrapolação metodológica.
Redução de sintomas internalizantes em filhos de alcoolistas não equivale a manejo de dependência química, prevenção de recaída e reestruturação de padrão aditivo.
O estudo citado serve então como evidência preliminar moderada de que intervenções psicossociais baseadas em TCC conduzidas por enfermeiros psiquiátricos treinados podem ajudar em sofrimento emocional associado ao contexto familiar do alcoolismo. Isso é defensável. Enfermeiros psiquiátricos treinados conseguem operacionalizar técnicas cognitivo-comportamentais grupais. Isso é coerente, mas não existe equivalência dessa situação com psicoterapia especializada conduzida por psicólogos clínicos experientes. Você leigo precisa saber disso.
Leia agora: Aprenda a desenvolver sua saúde mental
Um estudo pode mostrar que uma intervenção é promissora em um contexto específico sem demonstrar eficácia robusta para todas as aplicações que depois são atribuídas a ele. Esse estudo, é um exemplo disso. Esse parecer, é uma extrapolação sem precedentes.
A próxima citação é de:
- VAN LIESHOUT et al., 2022, para trazer a evidência científica da efetividade de intervenções cognitivo-comportamentais conduzidas por enfermeiros no tratamento de depressão pós-parto (e nossa, aqui eu fico muito chateada. Mexe comigo pessoal e profissionalmente).
Eu não sei qual a alusão feita aqui. Eu imagino que aqui eles estejam citando o artigo: Impacto da terapia cognitivo-comportamental (TCC) na redução dos sintomas de depressão pós parto. Mas, esse artigo é de Figueiredo, M. L. S., Lacerda, A. L. L., dos Santos, R. I., Leal, B. S., Corrêa, C. P., Goinski, L. E. B., … & Crestani, M. J. C. e cita Van Lieshout no seu decorrer.
Ryan J. Van Lieshout é um psiquiatra, pesquisador e professor canadense ligado à McMaster University, uma instituição muito conhecida internacionalmente por sua tradição em Evidence-Based Medicine. A linha de pesquisa dele gira principalmente em torno de saúde mental perinatal, depressão na gestação, depressão pós-parto, intervenções psicoterápicas no período perinatal, impacto da saúde mental materna no neurodesenvolvimento infantil.
Leia agora: Renan Inquérito: A Arte como ferramenta de transformação na educação
Esse autor participa de uma linha de pesquisa que dialoga com modelos colaborativos e intervenções estruturadas baseadas em TCC, para aumentar o acesso da população a processos que diminuam o sofrimento. Entretanto, isso não equivale a demonstrar equivalência entre intervenções conduzidas por enfermeiros e psicoterapia cognitivo-comportamental especializada realizada por psicólogos clínicos. A evidência atual favorece modelos multiprofissionais supervisionados e intervenções protocolizadas em contextos específicos.
Leia agora: Empresa de Ceres vem cuidando da saúde mental de seus colaboradores
Bom, eu quero deixar claro que entendo que o enfermeiro em saúde mental possui papel fundamental na atenção psicossocial, especialmente no manejo clínico, acolhimento, continuidade do cuidado, educação em saúde e intervenções psicossociais estruturadas. Mas o psicólogo é central para avaliação psicológica, psicoterapia, manejo da subjetividade e formulação clínica aprofundada. E avalio realmente como um perigo haver um parecer que encoraje um profissional de fora do campo da psicologia, a realizar um processo tão complexo como o da Terapia Cognitivo-Comportamental de maneira… tão tranquila.
Leia agora: Morte silenciada: O suicídio e a representação social
Eu temo pelo reconhecimento da minha classe profissional, que foi tão menosprezada por tanto tempo, e agora tem ganhado reconhecimento, tanto, que outros profissionais querem estar dentro dela, sem serem regidos/supervisionados da maneira adequada. Mas entendo que quando algo é bom, e prova que é bom, todo mundo quer um pedaço.
Mas sabe, faço das palavras de Ana Claudia Quintana Arantes, as minhas:
“Sempre digo que medicina é fácil. Chega até ser simples demais perto da complexidade do mundo da psicologia. No exame físico, consigo avaliar quase todos os órgãos internos de um paciente. Com alguns exames laboratoriais e de imagem, posso deduzir com muita precisão o funcionamento dos sistemas vitais. Mas, observando um ser humano, seja ele quem for, não consigo saber onde fica sua paz. Ou quanta culpa corre em suas veias, junto com seu colesterol, ou quanto medo há em seus pensamentos, ou mesmo se estão intoxicados de solidão e abandono. (…) Se não sabemos onde está a nossa importância, dificilmente seremos capazes de fazer alguma coisa na vida de alguém”.
Leia agora: Em fala infeliz, prefeito de Goiânia ataca a Psicologia
E como psicólogos… não é incomum recebermos em consultório pessoas com questões abertas, sem fechamento adequado. Questões essas abertas por filósofos, coach, mentor, agora, provavelmente, enfermeiros, que olham pro campo psicológico e pensam: vou tentar. E arriscam o bem estar de muita gente, até abrem questões, mas não fecham.
Leia agora: Ansiedade, artigo popular do Mestre Djose
Isso me lembra um professor que sempre me dizia: “não abre o que você não vai dar conta de fechar; isso é irresponsável e antiético”. Mas como parece impossível impedir o que já está permitido, o meu pedido para vocês que agora vão fazer 1 ano de especialização segue esse: “não abram o que vocês não vão dar conta de fechar; isso é irresponsável.”.
Aos leigos, aqueles que procuram por processo psicoterapêutico: se certifiquem sobre a formação daqueles que vão te propor acompanhamento. Estamos numa terra sem lei no cuidado com saúde mental: tem-se descoberto que esse cuidado é importante, e bom… somos capitalistas, né?! Lá vão eles vender.
Conheça nossa coluna sobre Saúde Mental
Mais lidas