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Lógica colonial marca gol em final de Copa

A velha discussão sobre o racismo entra em campo. Para alguns o preconceito racial é falta grave e para outros é jogada normal
Publicado em 27 de julho de 2026
por Kássio Kran

Fim de jogo, Argentina bate a França nos pênaltis e é se tornou tricampeã da Copa do Mundo em 2022 e a velha discussão sobre o racismo entrou em campo. Para alguns o preconceito racial é falta grave e para outros é jogada normal. Assunto clichê, mas que é necessário justamente para que se torne desnecessário no futuro e se não fosse importante a discussão, as entidades futebolísticas jamais considerariam quando em verdade até realizam campanhas contrárias a prática que diminui a humanidade de alguém diferente.

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Muitos periódicos espalhados pelo mundo trouxeram o questionamento sobre o motivo da seleção argentina ser composta apenas por jogadores brancos, por ser um país latino-americano, mas não questionaram o fato de a França ter tantos jogadores negros, sendo um país europeu. Mais uma vez a grande mídia responsabilizando o colonizado pelos atos do colonizador numa inversão histórica que se repete a cada vez que um preto é abordado e confundido com um ladrão, mas nesse caso a lógica perversa está inversa, pois o branco (Argentina) é acusado pelo preto (França) e nessa miscigenação às avessas, vamos descobrir quem é quem nesse jogo.

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Então vamos começar com por que a seleção albiceleste é tão branca? Alguns jornais disseram que não há negros no time sul-americano unicamente por racismo. Outros portais disseram que é pelo fato de serem escolhidos apenas os melhores e isso levanta outra discussão: entre os melhores, não há um argentino negro? Esse argumento já é uma jogada que termina com um impedimento sinalizado. É inquestionável que os melhores estavam em campo, tanto que levaram a taça e eles são brancos.

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A questão racial no nosso vizinho é bastante complexa, tanto quanto ou até mais que no Brasil. A mistura racial lá se deu de uma forma a tornar historicamente o seu povo mais homogêneo no quesito cor de pele e isso acaba gerando uma dificuldade de autoidentidade e uma negação da própria negritude devido ao embranquecimento histórico, dado pelo recebimento de milhões de imigrantes europeus que passaram a conviver com os povos originários entre o século XIX e XX.

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Isso trouxe para los hermanos um rearranjo cultural, mas invisibilizou a minoria que varia entre 5% e 10% de afrodescendentes que em contraponto aos mais de 50% no Brasil, representa um silêncio racial dos “europeus da América”, que fica tão gritante quando clubes argentinos jogam contra times brasileiros em campeonatos internacionais, como a Libertadores por exemplo e a torcida deles nos chamam de macaco (mono) e jogam banana no gramado.

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Os argentinos também deixaram claro seu preconceito durante toda a Copa entoando cânticos homofóbicos em referência a um suposto relacionamento do artilheiro Mbappé com uma mulher trans e cânticos xenofóbicos na derrota para a Arábia Saudita contra seus torcedores em sua estreia, Atos racistas também foram registrados após a final contra o francês Coman, mas nas redes sociais e por parte de pessoas de sua própria nação. Mas isso não é novidade por lá. Em 2020 o astro Mbappé cogitou deixar sua seleção por ser também alvo de ofensas racistas, inclusive por parte de um dirigente.

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Ora, com aquele escurecimento todo tão evidente principalmente a partir do segundo tempo da final com as substituições, como dizer então que há racismo na seleção francesa? Uma pesquisa realizada pelo Instituto CSA a pedido da Comissão de Direitos Humanos da França em 1998 (ano do primeiro título francês) atestou que 58% da população tinha inclinação para desempenhar algum comportamento racista, com a Copa acontecendo lá.

“Não posso jogar para gente que pensa que sou um macaco. Pensei em nunca mais voltar a seleção”

Mbappé

Apesar de sua equipe multiétnica e dar um show de diversidade valorizando o slogan do país (Igualdade, Liberdade e Fraternidade), a França está longe de ser um exemplo de democracia racial. Ter 15 jogadores negros no elenco não é sinal de paridade e sim de desigualdade, considerando ainda que estes ou tem dupla nacionalidade ou ascendência africana, ou seja, a seleção francesa é fruto do processo de colonização recente portanto é resultado de exploração. O assunto é muito mais amplo do que essa discussão em resenha pós-jogo.

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Mbappé é filho de camaronês, Dembélé têm origem em Mali, na região africana do Saara e até o treinador Zidane e outros jogadores tem nacionalidade argelina. Trata-se da exportação de pessoas de outras etnias para a prestação de serviços. Remete a lógica perversa da escravidão, com altos salários sim, mas ainda em pleno século XXI com tratamentos que diminuem a dignidade humana, como vimos no texto e lembrando das palavras de Galvão Bueno: “não é o dinheiro, tem muitas coisas que valem mais”, ao se referir a conexão familiar de Lionel Messi, que desconsiderando todo esse “mimimi” para os racistas e esse “beabá” para os antirracistas, mereceu ganhar a Copa de 22.

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Kássio Kran é psicólogo, conselheiro do CRP/GO, palestrante e terapeuta,
fundador do Instituto Ubuntu e da Fundação Henrique Gabriel dos Santos. 
Atualmente é CEO do PASH – Plano Assistencial em Saúde Holística

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Ficha Técnica

Editor Chefe: Luiz Fernando
Supervisão: Greg
Redação: Kássio Kran
Imagem: OA

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