
Em dias de jogos importantes (especialmente da Seleção Brasileira), o consumo de energia não segue o padrão de um dia comercial comum. O ONS monitora o chamado “efeito torcida”, que se caracteriza por uma oscilação abrupta e coordenada.
Durante a partida as fábricas param, o comércio fecha e as pessoas se concentram em frente a uma única tela. Isso gera uma queda repentina no consumo de energia do país. No intervalo do jogo centenas de milhões de pessoas fazem as mesmas coisas ao mesmo tempo. Ligam micro-ondas, abrem geladeiras, acendem luzes e ligam chuveiros. Isso cria um pico de demanda violento e vertical em questão de minutos.
A ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) publicou em seu site oficial, os gráficos que mostram essa mudança brusca na rotina dos brasileiros na prática. Mas qual o real impacto que isso gera? Menos gente consumindo energia seria bom, não é?
Não é bem assim.

Para o sistema elétrico, uma queda repentina no consumo de energia é tão perigosa quanto um aumento súbito de carga. O motivo é físico: o sistema precisa estar em perfeito equilíbrio entre a energia que é gerada e a energia que é consumida.
Se o consumo cai drasticamente em questão de minutos e as usinas continuam gerando a mesma quantidade de eletricidade, ocorre uma “sobra” de energia na rede. Isso gera impactos técnicos graves.
A rede elétrica brasileira opera em uma frequência padrão de 60 Hz (Hertz). Essa frequência é determinada pela velocidade de rotação das turbinas das grandes usinas. Quando o consumo cai e a geração continua alta, as turbinas das usinas começam a girar mais rápido porque a “resistência” da rede diminuiu. É o mesmo que acontece quando você está pedalando uma bicicleta subindo uma ladeira e, de repente, entra em uma descida íngreme: se você mantiver a mesma força nas pernas, os pedais vão girar descontroladamente.
A sobra de energia eleva a tensão (voltagem) das linhas de transmissão e distribuição. Essa sobretensão viaja pela rede e pode queimar transformadores nas ruas e danificar eletrodomésticos sensíveis que estão ligados nas tomadas das casas e indústrias.
Para evitar que as usinas e os eletrodomésticos sejam destruídos pelo descontrole da frequência e da voltagem, o sistema possui dispositivos automáticos de proteção (disjuntores de segurança). Se a frequência subir além de um limite seguro, esses disjuntores começam a desligar usinas ou linhas de transmissão automaticamente para proteger os equipamentos. O perigo é que o desligamento automático de uma linha pode sobrecarregar outra vizinha, gerando um desligamento em cadeia. Isso pode culminar em um blackout (apagão) provocado pelo excesso de energia não controlada.
É aqui que entra o papel importantíssimo do Operador Nacional de Energia.
O ONS atua de forma preventiva antes e durante o jogo para evitar esse colapso. O ONS ordena que os operadores das hidrelétricas fechem parcialmente as comportas para reduzir a força da água nas turbinas imediatamente antes do jogo começar. No caso dos parques eólicos e solares, o ONS pode emitir ordens de corte forçado de geração, mandando “desperdiçar” o vento ou o sol para não sobrecarregar a rede.
Jogos realizados durante a parte da noite, como Brasil x Marrocos (19:00), Brasil x Haiti (21:30) Brasil x Escócia (19:00) a queda de consumo foi bem menor comparado ao último jogo de Brasil x Japão, que ocorreu na parte da tarde às 14:00. Enquanto a maior diferença percentual entre os três primeiros jogos foi de 14.4%, no último jogo contra o Japão essa diferença chegou a mais de 21%.

Isso ocorre porque historicamente o consumo de energia sobe durante a noite, quando os cidadãos chegam e suas casas, vão para cozinha, tomam banho e realizam suas tarefas diárias.
Mesmo com esses dados tão interessantes, o que mais chamou a atenção do editor dessa matéria, é sobre a quantidade de energia desperdiçada pelo país. O país bate recordes sucessivos de produção de energia limpa (solar e eólica), mas enfrenta um desperdício invisível bilionário por falta de infraestrutura de armazenamento.
Como o sistema brasileiro opera sob a lógica do “gerou, consumiu”, quando o sol está muito forte ao meio-dia ou os ventos aumentam de madrugada, as usinas geram mais eletricidade do que o país consegue consumir naquele instante. Sem megabaterias para guardar essa sobra, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) é obrigado a ordenar o corte forçado de geração
As empresas geradoras são instruídas a “desligar” temporariamente seus painéis solares ou eólicas. Estima-se que as perdas de receita das usinas do Nordeste cheguem a R$ 6 bilhões por ano apenas jogando fora energia limpa que não pôde ser escoada ou armazenada.
Quando essa energia limpa e barata do sol é desperdiçada de tarde, o sistema precisa acionar as usinas termelétricas (caras e poluentes) à noite para cobrir o pico. Esse custo de ineficiência é repassado diretamente para a conta de luz dos brasileiros através das bandeiras tarifárias.
O ano de 2026 marca o início da maior virada de chave tecnológica do setor elétrico brasileiro para estancar esse desperdício. O Ministério de Minas e Energia (MME) publicou as diretrizes para realizar o Primeiro Leilão de Armazenamento de Energia em Baterias, agendado para dezembro de 2026.
A meta é contratar sistemas de megabaterias comerciais (conhecidos como BESS – Battery Energy Storage Systems) capazes de injetar de 2 a 6 Gigawatts (GW) de potência na rede. Os primeiros projetos começam a operar em agosto de 2028.
As baterias que serão instaladas no SIN não servirão apenas para “guardar” eletricidade. O ONS estabeleceu critérios ultra-rigorosos: elas deverão operar no padrão Grid Forming. Isso significa que os sistemas de baterias devem ser capazes de detectar flutuações e responder a variações de tensão na rede em incríveis 1/60 de segundo, funcionando como verdadeiros airbags elétricos para evitar apagões em momentos de oscilação brutal (exatamente o que acontece no intervalo de um jogo da Copa).
Além das baterias químicas (como as de lítio), o país estuda readequar usinas hidrelétricas para funcionarem como “usinas que rebobinam”. Durante o dia, com a sobra de energia solar barata, a usina usa bombas elétricas para empurrar a água de volta do reservatório de baixo para o de cima. À noite, essa mesma água desce girando as turbinas para gerar energia no horário de pico.