Com apenas 10 músicas, num total de pouquinho mais de 42 minutos, lançado para o público em 11 de dezembro de 2025 o álbum Emicida Racional VL2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores, possui canções com menos de 2 e com mais de 10 minutos de duração, com muitas variantes de ritmos e estilos, além de participações inestimáveis e até inesperadas, mas sempre referenciando e reverenciando o principal e mais conhecido grupo de rap do Brasil.
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Racionais MC’s, não é só uma banda de rap brasileira, mas sim fonte de inspiração e base para quase todos os artistas que vieram depois no gênero no Brasil e não é diferente com Emicida que dedicou por completo seu último álbum ao histórico grupo, mas não foi a primeira vez que isso aconteceu e justamente agora, num momento delicado para o rapper, em que perdeu sua mãe, Dona Jacira em julho do ano passado e viu sua empresa a Laboratório Fantasma fechar por um desacordo com seu sócio e irmão alguns meses antes, fabricar um disco laboratorial de produção invisível como um fantasma, utilizando como base o início de tudo, é uma obediência a primeira letra de sua primeira mixtape em 2009.
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Pra quem já mordeu um cachorro por comida até que eu cheguei longe. Nesse álbum, a canção “Intro (É Necessário Voltar ao Começo)”, o cantor narra que “quando os caminhos se confundem é necessário voltar ao começo”, portanto retornar a base do rap brasileiro, sendo um dos considerados sucessores dos Racionais, é sinal que o artista devido a tantos reveses no último ano, se sentiu confuso, perdido e voltou ao começo, sendo portanto esse seu novo álbum, uma “Intro”, um recomeço, um “glorioso retorno”, agora, de quem já estava aqui.
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Por isso pode ser considerado, senão o, um dos trabalhos mais pessoais de sua carreira, traduzindo sentimentos muito íntimos, viscerais, trazendo um sentido muitas vezes sem sentido para quem ouve como por exemplo na primeira e na última canção. A primeira, “Bom dia né gente? (ou saudade em modo maior)” tem apenas um toque de fundo com áudios de sua mãe, enviados via aplicativos de bate papo, que o artista sempre ouvia perto dos outros e ria do desempenho da matriarca.
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A ordem dos áudios certamente diz algo ao filho, com risadas repetidas inseridas em alguns momentos e histórias interconectadas, que passam pelas vivências familiares da família Roque de Oliveira, trazendo cotidiano, exalando proximidade apesar das distâncias, cumplicidade e problemas de saúde, além de um silêncio ensurdecedor a partir do sexto minuto, que parece até um erro de edição, seguido de choro sutil no minuto seguinte, lembrando também o período em que o artista ficou sumido e sem produção de trabalhos, desde a intriga pública com seu mano Fióti.
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A última faixa do álbum parece ser a sequência deste silêncio. Inicia na mesma pegada e aos poucos um riso suave aparece, seguido de diálogos incompreensíveis mas positivos e passarinhos cantando ao fundo, até começar uma comemoração de aniversário. É possível ouvir Leandro Roque de Oliveira (Emicida) chamando por Seu Wilson. O nome da canção? “(Outro) A próxima mensagem que você precisa está exatamente onde você está agora”, a única que além da primeira, tem um dizer entre parênteses e com um título desse tamanho, sua duração é a maior com mais de 10 minutos, sem nenhuma batida ou melodia inserida, mostrando que as relações harmoniosas também são canções.
A segunda música “Mesmas Cores & Mesmos Valores” é de fato a abertura do álbum propriamente dito, mostrando a cara do artista com uma batida forte com samples dizendo “Cores e Valores” na voz de Mano Brown, deixando uma mensagem rápida e cheia de referências profundas que leigos (“os que tem pose e não tem postura”) levarão meses para entender se ouvirem todo dia. A canção conversa com a seguinte “O que nóiz faz com essa dor?”, um instrumental especial da Nave com toques do DJ KL Jay.
O aúdio não tem voz, mas fala demais, ou seja, não é apenas um instrumental uma vez que reúne notas de uma das canções mais potentes do artista, “Boa Esperança” mista com aquele toque grave de “Capítulo 4, Versículo 3” que prega na mente e ainda parece ter uma pitada de “Olhos Coloridos”. Sarará Criolo, como esse cara de cabelo enrolado consegue fazer isso? E deve ter mais. “Tinha que ser preto”. Assim faz até Jesus chorar.
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“Isso aqui é pra quem nota o flow”, diz a canção seguinte que é outra pergunta “Finado Neguim memo?”, falando justamente sobre notar algo além do que se ouve além das batidas é outra música lotada de referências com rimas “fartas para enfartar cada um de vocês”, leigos e notadores. Fala sobre estado de presença e remete a tirar um tempo para si mesmo, buscando o autocuidado sem nunca retirar-se da luta, considerando a mudança de planos na construção da melhor estratégia, sempre. A canção é inspirada na “Finado-“Neguim”” do também último álbum do Racionais MC’s, de 2014 e está repleta de proparoxítonas, palavras difíceis jogando metáforas.
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A canção que marca o meio do álbum é “A coisa mais esperançosa e mais dilacerante são a mesa” não é a minha preferida, mas para mim, a mais bela e genial de todas do Emicida. Esta obra de arte consegue em exatos 2 minutos unir 4 músicas complexas com transições que superam qualquer orquestra, sendo uma delas com mais de 8 minutos, num total de mais de 20 minutos se as somarmos.
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Ele abre a canção com “Diário de um Detento” do Racionais MC’s trazendo a dureza de alguém que está preso, talvez numa saudade, já que em seguida entra a melodia de “Ela Sumiu” do Tim Maia (que coincidentemente tem um disco com o título Racional), remetendo talvez a ausência de sua mãe. Só que o sample dessa mesma música está em outra do Racionais, a “Homem na Estrada”, que tem sozinha 8:41 de duração trazendo o peso de uma caminhada de quem se sente sozinho em decorrência das ocorrências incontroláveis da vida e finaliza com o refrão de uma de suas músicas mais conhecidas que é Levanta e Anda, gravada em parceria com Rael, como quem revisita todos os traumas embutidos no texto pelas circunstâncias enfrentadas e dissesse a si mesmo: “Somos maior, nos basta só sonhar e seguir”, denotando um mix de sentimentos em catarse.
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Para levantar e andar, sonhar e seguir como sugere a referida música de abertura do álbum “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui”, após trecho do poema de introdução, “Milionário do Sonho”, é preciso estado de presença e essa filosofia une a 4ª e a 5ª canções do Racional VL2, unificadas pela frase “Onde a sua mente está agora?”, na primeira no início e na segunda, no final, na última frase.
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E falando em unificação, uma junção impensável foi registrada na 6ª faixa, o histórico encontro dos 3 Temores, em alusão a tenores, tratando-se de Emicida, Rashid e Projota chamada “A mema praça”, remetendo ao início da carreira de ambos com trabalhos que são anteriores a Laboratório Fantasma, advindos das batalhas de rimas em meados de 2004/2005 até a formação da primeira instituição dos artistas a Na Humilde Crew criada em 2009.
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Desde 2011, os amigos Emicida e Projota não se encontravam, ao menos publicamente e se somaram para cantar sobre a guerra da Praça da Sé, como ficou conhecida a situação catastrófica de como terminou um show do Racionais no ano de 2007 no Centro de São Paulo, com registro de feridos, além da visão distorcida da mídia que ajudou demais na marginalização do rap devido ao fato. A ocorrência é lembrada pelo grupo no álbum Cores & Valores, que inspirou por total o trabalho mais atual do Emicida, podendo ser enquadrado como a sua sequência, já que se trata do Volume 2, sem ter sido feito por ele, um Volume 1 reforçando a idéia de que o cantor é um dos sucessores do grupo.
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Pegando o gancho da ideia de show protagonizada pelos amigos do passado neste estado presente, Emicida pergunta na canção de número 7, “Quanto vale o show memo?” e nesta ele relê até mesmo falas de Mano Brown e conta sua história associando a autobiografia cantada e rimada com a história social e política do Brasil e na próxima música, “Compreender tudo, é perdoar tudo” a estrela é Estela sua primeira filha recitando uma carta com profundas reflexões de conotação familiar ao som de finos toques de violão, parecendo abordar questões íntimas atuais, talvez recentes.
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A última canção a ser avaliada é a nona, “Us memo preto zica”, parafraseia diversas do Racionais também com reflexões pessoais e sociais, abordando inclusive a evolução e maturidade emocionais nas relações interpessoais e institucionais, trazendo a importância da resiliência e do aprendizado que só as experiências da vida podem proporcionar aos pretos de agora, que passam pelas mesmas questões dos pretos de outrora.
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O disco Mesmas Cores & Mesmos Valores é uma dissecação de Racionais MC’s em sua totalidade, usando como base o trabalho derradeiro do grupo de 2014, intitulado Cores & Valores, uma dissecação para quem quer estudar a anatomia do rap em uma verdadeira aula do professor Emicida. Na obra, ele amplia seu repertório e samplia suas produções, mesclando assim o perfil combativo dos primeiros trabalhos, época do Antigo Testamento de Emicida, além de ser suave e leve como nos mais recentes em AmarElo já na era do Novo Testamento dele que está no testamento do Racionais.
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A obra como um todo, em cada neologismo abrindo um novo paradigma metalinguístico num ritual maduro de domínio da caneta, cada áudio caseiro abrindo uma nova visão sobre o profissionalismo, cada ausência de estrutura musical com certa desproporcionalidade abrindo caminho para a arte em sua pureza, em cada silêncio desnuda Emicida e mostra Leandro Roque de Oliveira, nu tão nu que sua alma fica a mostra, isso é identidade.
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Conseguiu inserir numa mesma mídia por 10 vezes, sentimentos que buscam acomodação interna, gravações de nada, intercalando com uma lírica forte e diferente, traduzindo a vida crua em construção de cura, deixa visível seus dias de guerra e sua paz, tão Hip Hop que nem precisa cantar ou inserir qualquer batida, “som pra vencedor” como anunciado em “E.M.I.C.I.D.A.”, limpa as memórias, retraça a rota, como um verdadeiro “Zica e vai lá” por um novo ponto de partida.
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Praticamente todas as canções soam como artesanais, como se fossem feitas em qualquer estúdio simples de quintal, sem o compromisso de vender, ou feita para vender para clientes já conquistados, indicando que muitos certamente terão dificuldade em absorver a proposta, portanto fãs do cantor que não tem intimidade com suas obras do passado, mas apenas a partir de 2013 e especialmente 2019, não darão 5 estrelas e quem conhece os trabalhos anteriores a 2012 e as produções intermediárias menos conhecidas, darão até mais estrelas que o possível, afinal, o céu não é o limite.

Conheça a Fundação Cultural Henrique Gabriel de Souza, do Instituto Ubuntu
Kássio Kran é psicólogo, conselheiro do CRP/GO, palestrante e terapeuta,
fundador do Instituto Ubuntu e da Fundação Henrique Gabriel dos Santos.
Atualmente é CEO do PASH – Plano Assistencial em Saúde Holística
