Ser negro no Brasil é encarar todos os dias os desafios impostos por um racismo estrutural herdado da escravidão
Publicado em 27 de novembro de 2025
por Janathan Firmino
Por volta de 1530, foi o início do processo de escravização no Brasil, com a invasão e colonização portuguesa, que não se limitou ao território brasileiro. Portugal também atuava fortemente no continente africano, capturando e comercializando pessoas negras para o trabalho forçado nas colônias. Com isso estima-se que cerca de 12,5 milhões de pessoas foram arrancadas de suas terras.
Aproximadamente 2 milhões morreram durante a travessia, conhecida como Caminho do Meio, devido às condições extremamente desumanas: pessoas amontoadas, sem ventilação, sem higiene, com alimentação precária e submetidas à violência constante. A crueldade era tamanha que, em muitos casos, os corpos dos africanos mortos eram jogados ao mar. Relatos históricos indicam que tubarões passaram a seguir os navios negreiros, atraídos pelos corpos lançados à água — mudando inclusive suas rotas naturais.
Essa lembrança brutal atravessa séculos e ecoa na arte, um exemplo é a música do rapper Mano Brown, do grupo Racionais MC’s, ao dedicar a obra “Nego Drama” com os seguintes dizeres “à você que não virou comida de tubarão” uma referência direta a esse passado trágico que interferiu na vida de milhares de pessoas durante esse período e de gerações e gerações, que até os dias atuais sofrem os respingos desse ato brutal e desumano além de evidenciar a e resistência do povo negro que sobreviveu à escravidão.
Que perdurou por séculos e apesar da pressão vinda da Inglaterra sobre os países sul-americanos, em especial o Brasil, inquietação que visava libertação dos escravizados, mesmo assim o citado pais ainda foi um dos últimos do mundo a conceder tal liberdade. Ao observar essa preocupação com os negros, é notável que era fruto dos interesses gerados pela Revolução Industrial inglesa, que avançava e o processo de industrialização estava em ritmo acelerado, onde surgiu a necessidade de mão de obra assalariada, capaz de consumir os próprios produtos e sustentar a expansão econômica.
Observando o contexto da escravidão no Brasil e a imposição da Inglaterra foram criadas leis como, a Lei Eusébio de Queirós (1850), que proibiu oficialmente o tráfico de pessoas escravizadas africanas para o Brasil. A Lei do Ventre Livre, promulgada em 28 de setembro de 1871, declarou livres os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir daquela data.
No entanto, determinava que as crianças ficassem sob a tutela dos senhores até os 8 anos de idade, podendo ser entregues ao governo mediante indenização ou permanecerem trabalhando até os 21 anos. E a Lei dos Sexagenários (Lei nº 3.270), de 28 de setembro de 1885, concedeu liberdade aos escravizados com mais de 60 anos, mas exigia que trabalhassem gratuitamente por mais três anos como indenização aos antigos proprietários.
Que são exemplos de “leis para inglês ver”, pois não se efetivaram de forma justa para as pessoas que teriam direito, mas sim serviram principalmente aos interesses dos senhores de escravos, homens que enriqueceram com o trabalho escravizado. Diferente de países como os Estados Unidos, que indenizaram ex-escravizados, por entenderem que eles sim eram os principais prejudicados nesse processo todo, o que não aconteceu no Brasil, já que os que ficaram no “prejuízo” foram os senhores e por isso receberam uma reparação.
Nesse viés a abolição da escravidão no Brasil completou 137 anos com o decreto da Lei Áurea (Lei nº 3.353/1888), que decretou a libertação de todos que viviam nas condições de escravidão. Mesmo assim, o povo negro enfrenta enormes dificuldades para ascender socialmente e ter suas reparações devidamente reconhecidas, uma vez que as políticas governamentais não abrangeram tão população de forma justa para tentar reparar a crueldade a que eles foram submetidos.
Ser negro, especialmente no Brasil, é encarar todos os dias os desafios impostos por um racismo estrutural herdado da escravidão, concordando com o grande geógrafo Milton Santos, reconhecido internacionalmente por suas reflexões sobre a sociedade e a condição do negro em um país racista, que afirma:
“Ser negro no Brasil é, com frequência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá embaixo, para os negros, e assim tranquilamente se comporta. Logo, tanto é incômodo haver permanecido na base da pirâmide social quanto haver ‘subido na vida’.”
Janathan Firmino, licenciado em Geografia (UEG, 2010), pai de Kauê e João Pedro, professor, massoterapeuta e terapeuta holístico. Criado por mulheres, suas principais referências, vó, mãe e irmã, ambas falecidas. Um homem que observa o espaço geográfico não só como lugar físico, mas como palco das transformações humanas, onde cada indivíduo busca seu lugar em meio às tensões do tempo e do capital