Pesquisar

Rádio OA

Pode conter a opinião do autor
Conteúdo original

Violência Obstétrica: O sonho que se tornou um pesadelo

Um breve ensaio sobre a violência obstétrica no Brasil.
Publicado em 31 de julho de 2022
por Lia Muniz

Título original: O SONHO QUE SE TORNOU UM PESADELO: UM BREVE ENSAIO SOBRE A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL


Leia agora: Nota: Resposta aos ataques sofridos após publicação desta matéria


O processo de gestação é um processo cheio de descobertas e aprendizados, os pais, mergulham em um mundo novo e por vezes, vivenciam um sonho, se preparando para um dos momentos mais especiais de suas vidas, o nascimento de seu filho. Mas infelizmente, às vezes, o que era para ser um sonho, se torna um pesadelo, o nascimento de um filho, um momento tão mágico e especial, pode se tornar assustador e traumatizante, quando falamos do cenário obstétrico do nosso país.

Uma pesquisa realizada pela Fundação Osvaldo Cruz (FIOCRUZ) constatou que 30% das gestantes que são atendidas na rede privada sofrem violência obstétrica, e das gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), 45% também vivenciam situações de violência obstétrica.

Violência Obstétrica é o termo usado para conceituar o desrespeito à mulher, à sua autonomia, ao seu corpo e aos seus processos reprodutivos, durante a gestação, parto e pós-parto. Pode manifestar-se por meio de violência verbal, física ou sexual e pela adoção de intervenções e procedimentos desnecessários e/ou sem evidências científicas. Afeta negativamente a qualidade de vida das mulheres, ocasionando abalos emocionais, traumas, depressão, entre outros prejuízos.

Recentemente, as mídias foram bombardeadas com notícias sobre casos de violência obstétrica e esse tema veio à tona. Como exemplo, podemos citar casos emblemáticos como o da influenciadora Shantal Verdelho, da atriz Klara Castanho e os casos ocorridos no Hospital da Mulher Heloneida Studart, relacionados ao anestesista.

Manobra de Kristeller (Empurrar a barriga da mulher), xingos, procedimentos sem o consentimento da mulher, violência moral, violência psicológica, falsos indicativos de cesária, negar a presença de um acompanhante e abuso sexual, caracterizam os casos aqui citados e estão presentes na experiência de parto de muitas outras mulheres.

Desde o pré-natal, há uma cascata de acontecimentos que levam a violência obstétrica, ao meu ver, a violência se inicia na ausência de qualidade das informações ofertadas a família, durante o pré-natal. Muitas mulheres vivenciam uma violência obstétrica, acreditando que é apenas um procedimento médico padrão.

Casos como os citados aqui, talvez, não teriam acontecido, se essas famílias estivessem munidas de informação. Como exemplo, a mulher que foi violada pelo anestesista durante uma cesariana, teve seu acompanhante retirado da sala de cirurgia, no entanto, a Lei Federal 11.108/2005 garante a presença de um acompanhante durante todo o tempo de estadia no hospital.

A ausência de informação sobre os procedimentos médicos e sobre os seus direitos, coloca as mulheres em uma situação de vulnerabilidade muito maior. Mulheres e famílias precisam ser orientadas e empoderadas para evitarem tais situações, ou se caso, essas situações ocorrerem, saberem lidar.
A violência obstétrica é uma questão estrutural e cultural, os profissionais que a praticam, muitas vezes, acreditam estarem fazendo o mais correto. Historicamente, os partos eram eventos familiares, e as mulheres tinham a liberdade e autonomia para conduzirem o próprio parto, pois o mesmo, é um evento natural.

Com a transição do cenário do parto de um ambiente doméstico, para um ambiente hospitalar, toda a naturalidade do parto e autonomia da mulher, foi se perdendo. O protagonista do parto veio a ser o médico obstetra, e a mulher, uma ferramenta passiva para o nascimento do bebê, essa inversão de papéis, criou uma estrutura no cenário do parto e nascimento, que viabiliza o que chamamos hoje, de Violência Obstétrica.

Mesmo em Maternidades que são referências internacionais na Humanização do Parto e Nascimento, como exemplo, o Hospital São Pio X em Ceres, Goiás, ainda encontramos vestígios dessa cultura violenta.

Leia agora: Realizada Capacitação em Parto Humanizado no Hospital São Pio X.

Um sonho, são as políticas públicas de atenção à saúde da mulher, que na ponta da linha, se tornam um pesadelo, ao esbarrarem na estrutura e cultura violenta regente. O cenário obstétrico no Brasil precisa mudar, as estruturas da atenção à saúde da mulher, direitos reprodutivos, gestação, parto e puerpério precisam ser repensadas, e o protagonismo da mulher, precisa ser resgatado.

Ficha Técnica

Título original: O SONHO QUE SE TORNOU UM PESADELO: UM BREVE ENSAIO SOBRE A VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL
Texto: Lia Muniz

Os comentários do OAgregador ainda não estão disponíveis. Nossa equipe esta trabalhando para desenvolver um sistema de comentários seguro.

Edmário está se saindo melhor nas redes sociais e isso muito provavelmente é fruto de uma boa e eficiente equipe
Aqui está um exemplo de uma carta que recebi. Nos últimos meses meu coração está com as crianças que se inspiram depois de me ouvir falar
As semelhanças entre o caso dos zagueiros Serginho do São Caetano e Izquierdo do Nacional