“O futebol é só um jogo”, quem nunca ouviu isso? Não consigo concordar. Acredito que o futebol revela muito mais sobre a sociedade do que sobre o esporte. Basta observar quem é celebrado, quem é condenado e quem permanece protegido pelo silêncio. Em outras palavras, o futebol é um espelho, e como todo espelho, devolve uma imagem que nem sempre gostamos de ver.
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Ao fim da Copa do Mundo de 2026, ficou evidente que os debates mais importantes não estavam apenas nos esquemas táticos, nas substituições ou nas estatísticas. Eles estavam nas arquibancadas, nas redes sociais e, principalmente, nos silêncios. Lamine Yamal terminou o torneio consagrado. Seu futebol encantou e sua juventude renovou a esperança de uma geração, além do carisma indiscutível de seu irmão Keyne. Tudo isso ressalta o lado lúdico da Copa, e nos faz celebrar. Mas confesso que um pensamento me acompanhou depois da final: e se ele não tivesse vencido?
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A pergunta pode parecer pessimista, mas a história recente do futebol mostra que não é. Atletas negros frequentemente precisam ser extraordinários para receber o mesmo reconhecimento que outros recebem apenas por serem bons. Quando vencem, tornam-se exemplos de talento. Quando perdem, voltam a ser reduzidos à cor da pele. A derrota da Inglaterra na Eurocopa de 2024 deixou isso escancarado. Bukayo Saka, Marcus Rashford e Jadon Sancho não foram apenas criticados pelos pênaltis desperdiçados; foram vítimas de uma avalanche de ataques racistas que mostrou que, para parte da sociedade, o erro esportivo continua sendo interpretado através do preconceito.
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Enquanto isso, outro silêncio gritou mais alto.
Ao longo do ciclo desta Copa, diferentes atletas chegaram ao torneio cercados por denúncias ou investigações relacionadas à violência contra mulheres. Evidentemente, denúncias não equivalem a condenações e esse é um princípio básico de qualquer estado democrático. Ainda assim chama a atenção a rapidez com que clubes, federações e patrocinadores costumam se mobilizar para proteger imagens, contratos e resultados, enquanto os debates sobre violência de gênero permanecem em segundo plano.
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Não se trata de defender julgamentos públicos ou condenações antecipadas. Trata-se de perguntar por que determinadas questões parecem tão desconfortáveis para o futebol masculino.
Talvez porque elas obriguem o esporte a olhar para si mesmo.
Existe uma cultura historicamente construída em torno das masculinidades que ensina homens a proteger outros homens. No esporte de alto rendimento, essa lógica muitas vezes ganha uma camada extra: a do dinheiro. O sucesso esportivo produz prestígio. O prestígio produz influência. A influência produz silêncio. Nem sempre é um silêncio explícito. Às vezes ele aparece na nota oficial que nunca é publicada. Na entrevista que não acontece. Na pergunta que o jornalista deixa de fazer. No patrocinador que prefere esperar “a poeira baixar”. Na torcida que relativiza comportamentos porque “dentro de campo ele resolve”.
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O dinheiro não compra inocência. Mas frequentemente compra tempo, narrativas, assessorias, proteção institucional e o benefício permanente da dúvida. É um privilégio que poucas pessoas possuem. Ao mesmo tempo, atletas negros continuam precisando provar, a cada jogo, que pertencem ao lugar que conquistaram pelo próprio talento. Basta um erro para que o preconceito, muitas vezes adormecido, encontre novamente espaço para se manifestar.
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É difícil ignorar como esses dois fenômenos dialogam entre si. De um lado, homens negros frequentemente são julgados com mais severidade por suas falhas esportivas. De outro, homens poderosos, ricos e admirados conseguem, muitas vezes, atravessar denúncias graves com muito menos desgaste público do que se esperaria. O ponto em comum não é o futebol, é a forma como nossa sociedade distribui privilégios, vulnerabilidades e credibilidade.
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Como psicóloga, também não consigo olhar para esse cenário apenas pela perspectiva do desempenho esportivo. A Psicologia do Esporte costuma ser lembrada quando um atleta precisa controlar a ansiedade antes de uma final, lidar com derrotas ou melhorar sua performance. Mas sua contribuição pode — e deve — ser muito maior. Ela pode ajudar na construção de culturas esportivas mais saudáveis, em que desde cedo questões como responsabilidade, consentimento, respeito e ética façam parte da preparação tanto quanto o treinamento físico.
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Pode contribuir para a formação de lideranças que compreendam o impacto de seus comportamentos dentro e fora de campo. Pode favorecer espaços em que masculinidades não precisem ser sustentadas pelo silêncio, pela violência ou pela proteção entre pares. Pode, acima de tudo, lembrar que saúde mental não se resume ao bem-estar individual; envolve também as relações que construímos e os valores que escolhemos preservar.
Se podemos levar algo dessa Copa, que seja isso – os campeões levantam a taça por alguns minutos. Os silêncios, quando não são enfrentados, permanecem por muitos anos.
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Referências
- Connell, R. W.; Messerschmidt, J. W. (2005). Hegemonic Masculinity: Rethinking the Concept. Gender & Society, 19(6), 829–859.
- Conselho Federal de Psicologia (CFP). Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas(os) no Esporte.
- FIFA. FIFA Guardians™: Safeguarding in Football e documentos sobre combate ao racismo e proteção no futebol.
- ONU Mulheres. Violence Against Women: Facts and Figures.
- The Football Association (FA). Comunicados oficiais sobre os ataques racistas sofridos por Bukayo Saka, Marcus Rashford e Jadon Sancho após a final da UEFA Euro 2024
Leia todos os artigos de Karen Rodrigues
Karen Rodrigues é psicóloga formada em 2011,
especialista em Psicologia do Esporte e do Exercício pela Ceppe-SP,
Psicologia no Futebol, pelo Futebol Interativo-SP, e apaixonada por esportes;
atende online demandas de atletas amadores e profissionais e demais demandas de saúde mental
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